Conto autoral: Café com Platão

Num meio-dia de fim de Primavera, tive um sonho estranhamente interessante. Vi Platão tomando café em minha cozinha. Veio de mansinho, ferveu a água e pegou um bule velho que encontrará no armário de meu pai. Tinha semblante calmo, como quem veio de longe. Parecia que acabara de fugir do seu tempo, onde tudo era muito chato e por isso, resolveu fugir. Na Grécia Antiga deixou a academia em que lecionava sem pensar em recuar, pois sabia que o templo estaria bem cuidado pelo seu mentor, Sócrates, e seu pupilo, Aristóteles, a quem nunca hesitou em ensinar.

Na Grécia, tudo era muito falso, muito filosófico. E por estar em tanto desacordo com o que observava, resolveu fugir e trocar as estatuas e livros de lugar. Em Atenas, tinha que estar sempre sério e de vez em quando, se tornar outra vez professor e ensinar a aprender, e estar sempre a ensinar, com a dúvida fiel companheira e a certeza dissolvendo a vida pouco a pouco, como café e açúcar que em meu sonho acabará de misturar.

Platão me convidou para sentar com ele e mais uma vez escutar as queixas do lugar que acabara de renunciar. Dizia que lá, nem se quer o deixavam ter o merecido descanso de Domingo que todos os outros Pensadores contemporâneos podiam desfrutar. E queriam que ele, que não sabia direito quem era, e muito menos o que queria ser, definisse com clareza os sentimentos mais indecifráveis da vida e provasse que o amor é algo que se pode facilmente identificar.

Um dia, lhe perguntaram novamente como reconhecer o amor. Platão então disse que amor, é tudo aquilo que se deseja. E os seguidores, logo questionaram o que no momento parecia ser o que de mais óbvio alguém poderia perguntar: se amor é o que se deseja, então o que é o desejo? Platão então, em dilema virtuosamente paradoxal, afirma que desejo é a vontade de se ter tudo aquilo que ainda não se tem. E com essa definição do amor-desejo, Platão já na segunda xícara de café me pergunta se eu teria bolinhos de chuva para com ele compartilhar.

Nesse momento fico intrigado, pois se amor é desejo e desejo é a vontade de se ter o que ainda não tem, pergunto então a Platão se ele ama os bolinhos de chuva que eu acabara de preparar simplesmente pelo fato de não os poder tocar. Platão sorri, e sem dar nenhuma explicação pega os bolinhos e joga café em meu rosto, fazendo-me imediatamente do sonho despertar.

Ainda hoje acordo de noite na esperança de reencontrar Platão e novamente lhe perguntar, se quando teve os bolinhos de chuva em suas mãos, imediatamente os deixou de amar. As vezes Platão volta aos meus sonhos, brinca com eles, coloca dilemas, me faz pensar. Vira uns de pernas pro ar, coloca uns em cima dos outros, mas nunca responde o que eu insisto em questionar.

E assim, Platão dia após dia caminha comigo. E nessa cotidiana vida de escritor, ele anda sempre comigo. Se faz presente no mínimo olhar para as coisas do mundo, enche de sensações meu pensar, mas de tudo eu evito sempre tocar, pois não quero ver o amor acabar. Sei que por não ser desse tempo, Platão me mostra tudo como quem vê as coisas pela primeira vez; mas no que diz respeito aos bolinhos de chuva; esses mesmo forrando completamente o estômago enquanto escrevo esse conto; os bolinhos de chuva eu jamais deixei de amar.

Leandro Silvério.



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